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Revista Pan-Amazônica de Saúde
On-line ISSN 2176-6223

 


Rev Pan-Amaz Saude vol.2 no.1 Ananindeua Mar. 2011

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ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE | ARTÍCULO ORIGINAL

 

Enteroparasitoses numa população de escolares da rede pública de ensino do Município de Mirassol, São Paulo, Brasil

 

Enteroparasitoses in a population of students from a public school in the Municipality of Mirassol, São Paulo State, Brazil

 

Enteroparasitosis en una población de escolares de la red de enseñanza pública del Municipio de Mirassol, São Paulo, Brasil

 

 

Marcus Vinicius Tereza BellotoI; Juares Elias Santos JuniorI; Elenir Alves MacedoI; Adão PonceII; Kátia Jaira GalisteuIII; Edna de CastroI; Luciana Ventura TauyrI; Andréa Regina Baptista RossitIV; Ricardo Luiz D. MachadoI

ICentro de Investigação de Microrganismos, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto-SP
IICurso de Enfermagem, UNIFAIMI- Mirassol-SP
IIIDepartamento de Enfermagem Geral, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto-SP
IVInstituto Biomédico, Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ

Endereço para correspondência
Correspondence
Dirección para correspondencia

 

 


RESUMO

Verificou-se a prevalência dos enteroparasitos em 310 alunos (2 a 15 anos) matriculados numa escola da rede pública do município de Mirassol, no Estado de São Paulo. Uma amostra fecal de cada criança foi coletada e processada pelos métodos Faust e de Hoffmann, Pons & Janer, usualmente empregados na detecção de protozoários e helmintos humanos. Das crianças analisadas apresentaram-se parasitadas 30,3%, com pelo menos um parasito intestinal patogênico. Giardia Lamblia foi o protozoário mais frequente (15,16%), seguido da Entamoeba histolytica (0,64%). Os helmintos detectados foram: Ascaris lumbricoides (3,55%), Strongiloides stercoralis e Taenia sp, que foram diagnosticados em 0,32% das amostras avaliadas. Verificou-se associação significativa entre enteroparasitoses e uso de água de torneira. Não se observou significância estatística na comparação entre faixas etárias ou gênero e a presença de parasitos.  Embora não tenhamos associado distúrbios gastrointestinais à presença de doenças parasitárias intestinais, a presença destes agentes pode provocar novos casos, visto que estas crianças podem funcionar como portadores e, portanto, fonte de contaminação. Este estudo sugere que um programa de educação continuada envolvido com a prevenção e tratamento das infecções parasitárias é uma medida fundamental para a sua erradicação.

Palavras-chaves: Doenças Parasitárias; Giardia lamblia; Ascaris lumbricoides; estudos transversais.


ABSTRACT

This study observed the prevalence of intestinal parasites in 310 students (2 to 15 years old) enrolled in a public school in the Municipality of Mirassol, São Paulo State, Brazil. A stool sample was collected from each child and analyzed by the methods of Faust and Hoffmann, Pons and Janer, normally used for detection of protozoa and human helminths. A total of 30.3% of the children analyzed were parasitized, with at least one pathogenic intestinal parasite. Giardia Lamblia was the most common protozoan (15.16%), followed by Entamoeba histolytica (0.64%). The helminths found were Ascaris lumbricoides (3.55%), Strongiloides stercoralis and Taenia sp, which were diagnosed in 0.32% of the samples. There was a significant association between the occurrence of enteroparasitoses and the use of tap water. The comparison between the age groups, gender and the presence of parasites showed no statistical relevance. Although there was no association between gastrointestinal disorders and the occurrence of intestinal parasitic diseases, these agents may cause new infections because the children can act as carriers and therefore a source of contamination. This article suggests that a continuing education program focused on the prevention and treatment of parasitic infections is a key measure for their eradication.

Keywords: Enteroparasitoses; Giardia lamblia, Ascaris lumbricoides; Cross-Sectional Studies.


RESUMEN

Fue verificada la prevalencia de los enteroparásitos en 310 alumnos (2 a 15 años) matriculados en una escuela de la red pública del municipio de Mirassol, Estado de São Paulo. Se colectó una muestra fecal de cada niño y se procesó por los métodos Faust y de Hoffmann, Pons & Janer, usualmente empleados en la detección de protozoarios y helmintos humanos. De los niños analizados un 30,3% estaba parasitado, con al menos un parásito intestinal patógeno. Giardia Lamblia fue el protozoario más frecuente (15,16%), seguido de Entamoeba histolytica (0,64%). Los helmintos detectados fueron: Ascaris lumbricoides (3,55%), Strongiloides stercoralis y Taenia sp, que fueron diagnosticados en 0,32% de las muestras evaluadas. Se verificó una significativa asociación entre la enteroparasitosis y el uso de agua corriente. No se observó una estadística significativa en la comparación entre franjas etarias o género y la presencia de parásitos. Aunque no se haya asociado disturbios gastrointestinales a la presencia de enfermedades parasitarias intestinales, la presencia de estos agentes puede provocar nuevos casos, visto que estos niños pueden funcionar como portadores y, por lo tanto, fuente de contaminación. Este estudio sugiere que un programa de educación continuada comprometido con la prevención y el tratamiento de las infecciones parasitarias es una medida fundamental para su erradicación.

Palabras clave: Enfermedades Parasitarias, Giardia lamblia, Ascaris lumbricoides, estudios transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

Um dos principais problemas de saúde pública na população mundial consiste nas doenças originadas de parasitos intestinais, que contribuem para elevadas taxas de morbidade e mortalidade principalmente nos países em desenvolvimento1,2. Estima-se que nestes países aproximadamente um terço da população viva em condições ambientais que facilitam a disseminação de infecções parasitárias3. No mundo, as infecções por protozoários e helmintos intestinais afetam 3,5 bilhões de pessoas, promovendo a doença em aproximadamente 450 milhões4. As enteroparasitoses são transmitidas na grande maioria das vezes por via oral, por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados com formas parasitárias. No Brasil, a ampla diversidade das características socioeconômicas, climáticas e geográficas tem sido apontada como fator crítico para o perfil dos agentes etiológicos na diarreia, modelando assim a frequência destes diferentes enteropatógenos 5,6.

As crianças são um grupo de alto risco para infecções por parasitos intestinais7, pois podem entrar em contato com estes desde poucos meses de vida8. Estudos que buscaram correlação positiva entre a presença das doenças parasitárias intestinais e o gênero da criança 9,10 e presença da doença e a faixa etária durante este período de vida11,12 têm apresentado resultados inconclusivos. Ademais, tem-se constatado que a água de boa qualidade em creches contribui para prevenção de enteroparasitos, sendo essa prevenção potencializada quando está associada a uma rede de esgoto equivalente13.

No Brasil, tem sido observada uma grande variação tanto na frequência de parasitismo intestinal na população infantil como nos agentes responsáveis, podendo a frequência alcançar índices de quase 80% em algumas regiões. A detecção de enteroparasitos em escolares de uma periferia no Estado do Maranhão mostrou que o Ascaris lumbricoides foi o parasito de maior prevalência (40%)14, fato também observado em crianças da zona rural do município de Coari, Estado do Amazonas, Região Norte do Brasil (67,5%)15. No entanto, no Município de Rio Verde, Estado de Goiás, um estudo semelhante encontrou o protozoário Giardia lamblia (59%) como o parasito mais prevalente12. Já no Município de Criciúma, Estado de Santa Catarina, verificou-se que o Cryptosporidium (85,1%) foi o protozoário mais prevalente, seguido da Entamoeba histolytica (56,4%) e a G. lamblia (4,3%)6. Adicionalmente, dois outros estudos investigaram a presença de E. histolytica11 e G. lamblia 16 em crianças de uma creche na periferia da cidade de Belém, Estado do Pará, e detectaram a presença destes parasitos em 21,8% e 26,9% das amostras, respectivamente.

No Estado de São Paulo este panorama não se modifica, visto a vulnerabilidade deste segmento etário à aquisição de enteroparasitoses 17. Em crianças institucionalizadas em uma creche no Município de Botucatu, interior do Estado, observa-se que a giardíase, enterobíase e criptrosporíase, entre outras enteroparasitoses, são bastante frequentes18. No noroeste paulista, outros estudos19,20 mostraram elevada prevalência de enteroparasitos em populações infantis, reafirmando que as enteroparasitoses são um grande problema de saúde pública. Na década de 90, inquérito epidemiológico em crianças no Município de Mirassol demonstrou a detecção de G. lamblia (61,1%), A. lumbricoides (2,8%) e Ancilostomídeos (3,2%)13,21.

Objetivou-se neste trabalho avaliar a prevalência de parasitos intestinais, no Município de Mirassol, em escolares da rede pública de ensino e investigar possíveis associações epidemiológicas de caráter socioeconômico.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

No período de setembro de 2009 a março de 2010 analisou-se amostra fecal de alunos matriculados numa escola da rede municipal do município de Mirassol, no Estado de São Paulo. Esse estabelecimento se localiza num bairro periférico que teve origem a partir de um desfavelamento e atende crianças desde a 1o até a 4a série do ensino básico, provenientes de 19 microlocalidades diferentes.

Após explicação detalhada do projeto e a obtenção da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelos responsáveis das crianças, foi realizada a coleta de uma única amostra de fezes em formol a 10% e preenchido um questionário com dados socioepidemiológicos. As amostras coletadas foram enviadas ao laboratório do Centro de Investigação de Microrganismos da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), onde foi realizado o exame coproscópico. Os métodos utilizados para a detecção de enteroparasitos foram as técnicas de Faust, baseada na centrífugo-flutuação e a de Hoffmann, Pons & Janer, baseada na sedimentação espontânea, usualmente empregadas na detecção de protozoários e helmintos humanos. As análises laboratoriais foram desenvolvidas no Centro de Investigação de Microrganismos da FAMERP. Buscou-se ainda uma correlação entre os resultados parasitológicos obtidos e as condições sócio-econômicas, tais como o tipo de alimento consumido, água de consumo, gênero e faixa etária das crianças, renda familiar e o grau de escolaridade dos pais ou responsáveis. Além disso, investigou-se a associação entre distúrbio gastrointestinal e os parasitos detectados em fezes diarreicas e não diarreicas.

Para determinar a significância estatística entre os grupos estudados foi utilizado o teste do Qui-quadrado (χ2) e teste Exato de Fischer através do programa estatístico EPIINFO versão 6,0. O nível de significância adotado foi de 5%. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (CEP/FAMERP no 5159/2009).

 

RESULTADOS

Foram analisadas amostras fecais de 310 crianças. Como sumarizado na tabela 1, 30,32% (94/310) apresentaram pelo menos um parasito intestinal patogênico. Giardia lamblia foi o protozoário mais frequente (15,16%), seguido da E. histolytica (0,64%). Os helmintos detectados foram o A. lumbricoides (3,55%), S. stercoralis e Taenia sp., que foram diagnosticados em 0,32% das amostras avaliadas.

 

 

Os indivíduos participantes foram classificados em faixas etárias de: 2 a 4 anos (n = 39), 5 a 7 anos (n = 127), 8 a 10 anos (n = 114) e 11 a 15 anos (n = 30).  A maior positividade foi verificada entre as crianças de 8 a 10 anos (47,37%), seguida de indivíduos da faixa etária de 2 a 4 anos (38,46%), 5 a 7 anos (36,22% e 11 a 15 anos (30,0%). Não se observou significância estatística entre as faixas etárias e a presença de parasitos (tabela 2). Associação significante foi observada quanto ao uso de água de torneira e a presença de parasitos intestinais (p = 0,0462). Não se observou nenhuma relação significativa entre o gênero das crianças com a presença de parasitos intestinais (tabela 3).

 

 

 

 

Um subgrupo de amostras (n = 120) foi investigado para estabelecer a relação entre o aspecto fecal e o parasitismo mas nenhuma significância estatística foi encontrada (teste exato de Fischer, P = 0,7226) (tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

As infecções por patógenos intestinais são um dos problemas básicos de saúde publica em regiões tropicais22, e, além disso, têm sido reportados como responsáveis pela diarreia infantil23. Na América Latina, a grande diversidade das características socioeconômicas e geográficas é descrita como fator que influencia a etiologia infecciosa da diarreia, modulando assim o valor dos diversos enteropatógenos neste distúrbio24. Os resultados deste estudo demonstram uma taxa de parasitismo de 30,3% na população estudada, sendo a maior positividade para G. lamblia (15,16%) e A. lumbricoides (3,55%). Em outros estudos em crianças brasileiras a frequência de agentes parasitários intestinais e comensais varia de 24,6%25 a 92%26. É interessante notar que numa investigação realizada há uma década, também em escolares da rede pública deste Município, foi evidenciado que 63,9% da população estava parasitada e que estes mesmos parasitos foram os mais prevalentes21. Esta menor frequência de doenças parasitárias observada atualmente pode estar relacionada ao fato de que apenas uma amostra fecal de cada criança foi analisada. De qualquer maneira, os percentuais de resultados positivos de parasitos intestinais e/ou comensais detectados neste estudo refletem a exposição da comunidade ao solo contaminado e seus hábitos de higiene precários.

Sabe-se que a frequência de giardíase é mais alta em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Alguns autores afirmam que esta protozoose, ao contrário das helmintíases, tem maior frequência em crianças de família com renda mensal mais elevada, devido a um maior consumo de hortaliças27,28. Ademais, o decréscimo da taxa de giardíase normalmente se eleva com a faixa etária, visto que contatos sucessivos com o parasito aumentam a imunidade do hospedeiro e, além disso, a higiene se torna mais efetiva à medida que a criança cresce29,30. Outro fator importante na disseminação da giardíase é que este parasito frequentemente é encontrado em ambientes coletivos, visto que a transmissão pelo contato direto pessoa-pessoa aumenta as chances de contaminação21.Os resultados mostram taxas similares às descritas na população brasileira em geral16. No entanto, não podemos descartar a possibilidade de que estes índices de giardíase detectados possam estar relacionados às características biológicas do parasito, cuja eliminação é intermitente. Como mencionado anteriormente, o fato de coletar apenas uma amostra por criança pode ter contribuído para esta casuística na população infantil.

Dentre as diversas espécies de ameba, a E. histolytica é a única considerada invasiva, com prevalência elevada em regiões tropicais, principalmente em comunidades que vivem em condições sanitárias inadequadas31. Em diversos países, muitas pessoas são infectadas por amebas comensais, mas a maioria dos indivíduos faz um quadro assintomático. Os resultados mostram baixa casuística deste parasito, evidenciando que este pode não ser endêmico na região. Entretanto, a detecção de amebas comensais, como Entamoeba coli, Endolimax nana e Iodamoeba butschlii indicam que as crianças ingeriram água ou alimentos contaminados com resíduos fecais e que, portanto, elas estão sob risco de contaminação pela E. histolytica. Reforça-se a importância do diagnóstico e descrição destes comensais, a fim de se programar medidas preventivas para evitar infecção devido à contaminação oro-fecal de amebas patogênicas.

As infecções por A. lumbricoides em diversos estudos foram relacionadas com diminuição do crescimento e de proteínas de reserva em crianças e adolescentes. A redução da absorção intestinal e obstrução do lúmen levando à anorexia e ao bloqueio da superfície de absorção são apontados como causa desse distúrbio32. Estratégias para controlar os fatores de ocorrência deste geo-helminto mostraram que, além da idade, o número de pessoas que vivem no domicílio é também um importante fator de determinação da distribuição do parasito entre as famílias33. O A. lumbricoides foi o helminto mais diagnosticado neste estudo, diferente do que se tem evidenciado em outras regiões do Brasil24. Entretanto, estudo prévio em escolares na região de Mirassol21 evidencia também uma frequência pequena deste parasito, o que nos leva a acreditar que esta parasitose até agora não representa um problema nesta comunidade.

Somente um caso de infecção por S. stercoralis foi diagnosticado neste estudo e o mesmo esteve presente em uma criança que normalmente não usa calçado. De fato, vários autores descrevem baixos níveis de infecções causadas por este helminto em populações infantis10,24,25.

No entanto, como a maioria da população avaliada neste estudo apresenta o hábito de andar descalço, maiores atenções devem ser destinadas a este tipo de parasitismo, a fim de que isto não se torne um problema futuro.

Um importante problema de saúde pública, tanto em áreas urbanas como em áreas rurais é a teníase34. Ademais, a cisticercose é outra parasitose causada também por tenídeos humanos, cuja transmissão é facilitada pela disponibilidade de seus ovos na água e nos alimentos35. No presente trabalho, apenas um caso desta parasitose foi evidenciado, corroborando a literatura, onde baixas frequências deste parasito são observadas em crianças36. Note-se que este caso foi diagnosticado em um aluno que possui horta no quintal. A associação direta entre a infecção humana e a suína, principalmente em locais onde os mesmos coexistem, favorece a transmissão destas enteroparasitoses37. Portanto, os cuidados com a delimitação dos lotes e mesmo das hortas com trânsito de animais, especialmente de porcos, pode prevenir a endemicidade do complexo teníase/cisticercose nesta região.

A literatura nacional tem mostrado que o consumo de alimentos crus como frutas e verduras com resíduos fecais humanos contribui para a transmissão de diversas enteropararasitoses13,38 O hábito alimentar de consumir hortaliças in natura possibilita a exposição de uma grande parcela da população às formas transmissíveis de parasitos39, porém os resultados deste trabalho não encontraram nenhuma significância estatística quanto a esta variável. Em contrapartida, foi verificada associação significante entre o consumo de água da torneira e a presença de infecções por enteroparasitos. Sabe-se que as enteroparasitoses aqui detectadas são na maioria de veiculação hídrica e estudo prévio mostra que crianças que consumiam água não filtrada apresentavam 15,9 vezes mais chances de adquirir doenças parasitárias13. Por outro lado,  existe um sistema de tratamento de água oficial no município. Portanto, deve-se investigar como está acontecendo a armazenagem desta água de consumo nas residências que a torna fator de risco para a população infantil.

Sabe-se que as enteroparasitoses podem causar relevantes agravos à saúde, principalmente na população infantil, como desnutrição, anemia, obstrução intestinal e a diarreia40,41. A diarreia, por sua vez, pode ser ou não infecciosa42. No entanto, o fato de nenhum resultado significativo ter sido encontrado entre a presença de enteroparasitos e este quadro clínico nos faz pensar em outras razões para a presença de crianças com este quadro intestinal. Realmente, os estudos sobre os agentes etiológicos associados à diarreia mostram que a importância relativa dos diferentes enteropatógenos varia grandemente dependendo da estação do ano, área de residência (urbana ou rural), classe sócioeconômica, localização geográfica e, especialmente, com a idade do hospedeiro5,6,43. Além disso, os casos de diarreia podem estar associados a outras nosologias ou a outros enteropatógenos, tais como vírus e bactérias, ou até mesmo por outros protozoários não investigados, como Isospora belli e Cryptosporidium44. Por outro lado, deve-se lembrar que a infecção assintomática pode ser também resultante de mecanismos de tolerância imunológica ou por variações intraespecíficas que podem afetar a virulência do parasito42.

 

CONCLUSÃO

Finalmente, devemos considerar que devido às constantes mudanças sócio-demográficas observadas ao redor do mundo, torna-se possível o surgimento de aspectos diferentes nas doenças já circulantes na população, bem como o surgimento de micro-organismos patogênicos ao homem45. Embora tenham ocorrido avanços no tratamento e no diagnóstico nos últimos anos, as enteroparasitoses continuam sendo um significante problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Além disso, as ações de controle ainda apresentam restrições frente à infraestrutura de saneamento básico, bem como pela falta de projetos educacionais, que elucidem a população. Apesar da presença de parasitoses intestinais não estar associada a distúrbios gastrointestinais neste estudo, a presença destes agentes pode conduzir a novos casos, visto que estas crianças podem funcionar como portadores e, portanto, fonte de contaminação. Este estudo sugere que um programa de educação continuada envolvido com a prevenção e tratamento das infecções parasitárias é uma medida fundamental para a sua erradicação.

 

AGRADECIMENTOS

Aos profissionais do Centro de Investigação de Microorganismos da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto: Gustavo Capatti, Luciane Storti, Luciana Moran, Valéria Fraga e Amanda Oliveira pelo auxilio na coleta das amostras e apoio técnico. Aos funcionários da Escola Municipal de Mirassol, que permitiram a realização do projeto.

 

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Correspondence / Correspondência / Correspondencia:
Marcus Vinicius Tereza Belloto
Centro de Investigação de Microrganismos,
Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias,
Faculdade de Medicina-São José do Rio Preto.
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Telefone: 017-32015736
e-mail:marcusbelloto@hotmail.com

Recebido em / Received / Recibido en: 10/12/2010
Aceito em / Accepted / Aceito en: 4/3/2011

 

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