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Epidemiologia e Serviços de Saúde
ISSN 1679-4974 versão impressa

 


Epidemiol. Serv. Saúde v.20 n.3 Brasília set. 2011

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Como citar este artigo

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepção da imagem corporal de adolescentes escolares brancas e não brancas de escolas públicas do Município de Gravataí, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil

 

Body image perception of white and non-white female adolescents of city's Public Schools in the Municipality of Gravataí, State of Rio Grande do Sul, Brazil

 

 

Denise AertsI; Hosana ChinazzoII; João Alberto dos SantosII; Nara Regina OserowII

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Luterana do Brasil, Canoas-RS, Brasil. Curso de Medicina, Universidade Luterana do Brasil, Canoas-RS, Brasil
IIAcadêmica do Curso de Medicina, Universidade Luterana do Brasil, Canoas-RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: investigar a percepção da imagem corporal de meninas brancas e não brancas segundo inserção econômica, atividade física, estado nutricional e maturidade sexual.
METODOLOGIA: estudo transversal com amostra de 710 adolescentes femininas matriculadas entre a 5a e a 8a séries das escolas públicas municipais do Município de Gravata', Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, no ano de 2005; utilizou-se o 'Body Shape Questionnaire' para avaliar a percepção da imagem corporal e as demais variáveis foram extraídas de outros instrumentos auto-aplicáveis; as associações de interesse foram testadas com o χ2 de associação.
RESULTADOS: em relação à imagem corporal, 60,0% das meninas não estavam preocupadas e 4,7% estavam gravemente preocupadas; houve associação entre percepção da imagem corporal e cor da pele (p=0,005), estado nutricional (p=0,000) e maturidade sexual (p=0,000); essas associações mantiveram-se significativas não obstante o controle para a cor da pele.
CONCLUSÃO: os resultados sugerem que a cor de pele branca, o peso excessivo e a fase pós-puberal são fatores de risco para insatisfação com a imagem corporal entre as jovens estudadas.

Palavras-chave: saúde do adolescente; escolares; imagem corporal; raça.


SUMMARY

OBJECTIVE: the study aims to investigate the body image perception of white and non-white girls according to socioeconomic status, physical activity, nutritional status, and sexual maturity.
METHODOLOGY: a cross-sectional study with a sample of 710 female adolescents, enrolledfrom the 5th to the 8th grade at city's public schools of Gravataí, State of Rio Grande do Sul, Brazil, in 2005; the 'Body Shape Questionnaire' was used to assess body image perception; other variables were collected by means of other self-administered instruments; the associations of interest were tested using the chi-square test.
RESULTS: with regard to body image, 60.0% of the girls were not concerned with that topic and 4.6% were seriously concerned; there was association between body image perception and skin color (p=0.005), nutritional status (p=0.000), and sexual maturity (p=0.000); these associations were also significant even after controllingfor skin color. CONCLUSION: results suggest that white skin color as well as excessive weight and post-puberty sexual maturity status are risk factors for dissatisfaction with the body image among school teenagers in this population.

Key words: adolescent health; students; body image; skin color.


 

 

Introdução

Durante a adolescência, a auto-estima está associada à percepção que o jovem tem de seu corpo,1 em grande parte às transformações físicas e emocionais marcadas pelo desenvolvimento de características sexuais secundárias: a transição entre a infância e a idade adulta. Simultaneamente, o adolescente necessita elaborar o luto da perda de sua imagem infantil e buscar uma identidade preparatória para a vida adulta,2 a partir da percepção de sua nova aparência física. É um período crítico pelo aumento da preocupação com a imagem corporal.3

A maioria das adolescentes idealiza um modelo de corpo que, normalmente, segue o padrão de beleza esguio divulgado pela mídia. Quanto mais o corpo real se distanciar do corpo idealizado, maior será a possibilidade de conflito e comprometimento da auto-estima.4

Por imagem corporal entende-se a forma como o indivíduo se percebe e sente em relação ao próprio corpo.5 A imagem do corpo funciona como um retrato formado pelo sujeito, expandindo-se com suas experiências, em constante transformação. Não obstante, é provável que na adolescência convivam diversos fatores a influenciar da autopercepção corporal, como as características raciais e étnicas e os distintos ideais culturais. Estudo realizado em Minnesota, Estados Unidos da América (EUA), mostrou que adolescentes de origem africana e miscigenadas relataram maior satisfação corporal. Comparadas às caucasianas, as afrodescendentes expressaram quase três vezes mais satisfação. As hispânicas e asiáticas também se declararam menos satisfeitas comparativamente às afrodescendentes.6

A inserção econômica também costuma ser relacionada à autopercepção corporal. O fato de mulheres de classe econômica mais elevada terem maior acesso à mídia e informações torna-as mais suscetíveis ao padrão de beleza hegemônico na sociedade e, por isso, menos satisfeitas com a própria imagem.7,8

A prática regular de atividade física é um aspecto importante na promoção da saúde e na qualidade de vida dos grupos populacionais9 e pode estar relacionada à imagem corporal.10 Estudo constatou que a insatisfação com o próprio corpo não servia de motivação para a adoção de comportamentos adequados de controle de peso, como exercícios.11

A forma como o indivíduo percebe seu corpo também pode ser influenciada pela maturidade sexual. Meninas mais maduras costumam ser insatisfeitas com a imagem que fazem de si, a qual está diretamente relacionada ao aumento da gordura corporal.12 Sobre essa relação entre índice de massa corporal e percepção corporal,2,3,13 por exemplo, em São Paulo, aproximados 39,0% de meninas eutróficas percebiam-se com sobrepeso e destas, 47,0% consideravam-se obesas.13

O presente estudo teve como objetivo investigar a percepção da imagem corporal de meninas brancas e não brancas, matriculadas entre a 5a e a 8a séries de escolas públicas do Município de Gravataí, Estado do Rio Grande do Sul, segundo inserção econômica, prática de atividade física, maturidade sexual e estado nutricional.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal cuja população-alvo é composta por cerca de 4.800 adolescentes meninas, matriculadas entre a 5a e a 8a séries de escolas públicas municipais de Gravataí-RS. O Município contava uma população estimada de 261.150 habitantes em 200714 e a rede municipal de ensino dispunha de 66 escolas, 52 delas urbanas.

O cálculo do tamanho da amostra considerou uma prevalência de 50,0% para insatisfação da imagem corporal, erro máximo de ±4,5% e p<0,05, estimou 432 estudantes. Esse número foi encontrado mediante cálculo de tamanho amostral para estudos transversais disponível no programa Epi Info. Aplicado sobre ele um efeito de delineamento de 1,5, a amostra passou para 648 alunas. Este número ainda foi ampliado em 20,0%, para suprir a estimativa de perda em quantitativo dessa magnitude, totalizando 778 meninas.

Essa amostra foi estratificada segundo o número de alunas matriculadas em cada série. Por sorteio, definiu-se o número de turmas necessárias (e as respectivas escolas) de cada série até se alcançar o número calculado para a amostra.

Durante o processo de coleta de dados, foram excluídas 71 adolescentes cujos a) pais ou responsáveis se recusaram a autorizar sua participação, ou b) faltaram às aulas e não foram contatadas em três tentativas ou c) evadiram da escola. Concluída a coleta de dados, a amostra do estudo resultou em 710 meninas.

Alunos de graduação na área da Saúde e mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva atuaram como coletadores. Nas escolas que tiveram turmas sorteadas, a coleta dos dados em sala de aula utilizou quatro instrumentos autoaplicáveis.

As questões relacionadas à imagem corporal foram obtidas pelo 'Body Shape Questionnaire (BSQ)', criado por Cooper e colaboradores15 e válido para aplicação em adolescentes no Brasil.16 Da análise das respostas a 34 perguntas, pôde-se avaliar o medo do ganho de peso, a baixa estima relacionada à aparência física, o desejo da perda de peso e a insatisfação com o próprio corpo. De acordo com a soma dos pontos, as entrevistadas foram classificadas em quatro categorias de preocupação com sua imagem: não preocupadas (≤80 pontos); levemente preocupadas (81 a 110 pontos); moderadamente preocupadas (111 a 140 pontos); e gravemente preocupadas (≥141 pontos). Para o estudo da associação entre o desfecho e os fatores em estudos, as duas últimas categorias foram agrupadas, dado o pequeno número de meninas que se referiram à última categoria.

O instrumento utilizado para classificação do nível econômico foi baseado em questionário desenvolvido pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).17 Essa classificação é obtida mediante a pontuação de itens indicadores de posse e grau de instrução do chefe de família, de forma a identificar cinco classes - ou categorias - econômicas: A; B; C; D; E. O número de sujeitos nos extremos dessa classificação mostrou-se pequeno e as cinco categorias inicialmente consideradas foram agrupadas em apenas três: (A+B); C; (D+E).

As questões relativas à prática de atividade física foram elaboradas com base no 'Questionário Internacional de Atividade Física (IPAC).18 Foram consideradas 'insuficientemente ativas' as adolescentes que realizavam menos de 300 minutos semanais de atividades com gasto de energia; e 'suficientemente ativas', aquelas que realizavam mais de 300 minutos dessas atividades.

Para a classificação da maturidade sexual, estes autores adotaram a ficha de Tanner,19 instrumento com desenhos representativos do corpo em cinco etapas de desenvolvimento das mamas e pêlos pubianos no sexo feminino. As meninas apontaram, entre cinco imagens-estágios, o que mais se assemelhava à situação atual de seu corpo. Para análise, os dados coletados foram assim agrupados: período pré-puberal (estágios 1 e 2); aceleração da maturidade sexual (estágio 3); e desaceleração da maturidade sexual (estágios 4 e 5).

Também se fez uso de uma ficha de antropometria, para registro de peso, altura, sexo e cor de pele auto-referida. A antropometria foi realizada em ambiente privado, onde as meninas, vestidas apenas com calcinha, sutiã e uma camiseta oferecida pela equipe, tiveram suas medidas tomadas, bem como seu peso sendo descontado em 200g. A estatura foi aferida por estadiômetro de metal com precisão milimétrica, e o peso aferido com o auxílio de uma balança digital Seca/Unicef, com capacidade para 150kg e precisão de 50g. As técnicas utilizadas são as recomendadas pela Organização Mundial da Saúde.20 Calculou-se o índice de massa corporal (IMC).

A classificação do estado nutricional, inicialmente, adotou a população de referência da distribuição percentilar proposta por Must e colaboradores.21 As meninas com percentil igual ou superior a 50 foram reavaliadas utilizando-se a classificação de Cole e colaboradores,22 mais adequada quando se pretende destacar 'sobrepeso' e 'obesidade'. Novamente aqui, o pequeno número de meninas nas categorias extremas fez com que os autores decidissem agrupá-las em três categorias: desnutridas/risco nutricional (<P10); eutróficas (P10 a P85); sobrepeso/obesas (>P85).

Os dados sobre cor da pele, auto-referida pelas adolescentes entre branca, parda, preta, amarela e indígena, foram agrupados em apenas duas: branca e não branca.

Utilizou-se o teste do qui-quadrado (χ2) para investigar as associações de interesse e análise estratificada, considerando-se como de significância estatística os valores encontrados para p<0,05.

Considerações éticas

O presente estudo constitui um dos projetos satélites da pesquisa 'A saúde do escolar da rede pública municipal de Gravataí-RS', aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Luterana do Brasil com o no 375H/2004. Para que as estudantes participassem do estudo, seus pais ou responsáveis assinaram um 'Termo de Consentimento Livre e Esclarecido' sobre o projeto da pesquisa.

 

Resultados

A maioria das meninas (60%) não estava preocupada com sua imagem corporal. O restante da amostra ficou distribuído da seguinte forma: 23,7% sentiam-se levemente preocupadas, 11,6% moderadamente e 4,7% gravemente preocupadas.

A média da idade das estudantes foi de 12,81 anos, variando de dez a 18 anos (DP= ±1,66 anos). Entre as meninas estudadas, 50,2% declararam-se não brancas. Quanto ao nível econômico, 51,5% das jovens inseriram-se na categoria C, 31,7% na A/B e apenas 16,8% na categoria D/E. E em relação à atividade física, 67,3% estavam insuficientemente ativas, isto é, desenvolviam menos de 300 minutos/semana (Tabela 1).

 

 

Conforme a classificação de Tanner, 47,2% estavam na fase de aceleração da maturidade sexual, 28,6% em fase de desaceleração e 24,2% no período pré-puberal. Quanto ao estado nutricional, 68,2% foram classificadas como eutróficas. A prevalência de sobrepeso e obesidade foi maior que o dobro (21,6%) do risco nutricional/desnutrição (10,2%) (Tabela 1).

Na percepção da imagem corporal segundo os fatores em estudo (Tabela 2), o percentual de meninas brancas moderadamente/gravemente preocupadas com sua imagem corporal (19,9%) é maior que o das não brancas (12,7%) na mesma categoria. Entre as meninas não preocupadas com sua imagem, encontrou-se uma diferença estatisticamente significativa: 65,6% das não brancas contra 54,3% das brancas.

 

 

Não se encontrou associação significativa entre imagem corporal e inserção econômica, o mesmo em relação à atividade física. Quando estudada a associação entre maturidade sexual e imagem corporal, entretanto, percebe-se que, quanto maior a maturidade, maior é o percentual de preocupação com a imagem (Tabela 2). A análise estratificada mostrou que, mesmo com controle para a cor da pele, a associação entre maturidade sexual e imagem corporal continuou significativa. Constata-se, ainda, que essa preocupação é maior entre as meninas brancas (Figura 1).

 

 

Também se encontrou associação significativa entre estado nutricional e percepção da própria imagem: à medida que aumentou o IMC, cresceu a preocupação decorrente dessa percepção (Tabela 2). Se por um lado, 36,6% das meninas com sobrepeso/obesidade apresentavam-se satisfeitas com seu corpo, 36,5% das eutróficas manifestavam algum sinal de insatisfação. Observou-se, ainda, o caso de uma jovem branca com IMC de 14,6 que apresentou uma pontuação no BSQ de 118, classificando-se como moderadamente preocupada.

A análise da associação entre o estado nutricional e o desfecho, estratificada pela cor da pele, mostrou que a preocupação com a imagem é mais frequente nas meninas brancas do que nas meninas não brancas (p=0,000). Entre as brancas obesas/sobrepeso, 37,2% estavam moderada/gravemente preocupadas com sua imagem frente a 28,4% de não brancas na mesma categoria (Figura 2).

 

 

Discussão

Esta pesquisa investigou a percepção da imagem corporal de meninas de 5a a 8a série da rede pública de ensino de Gravataí. Em função do processo de amostragem e do tamanho da amostra obtido, acredita-se que as meninas estudadas representam as escolares do ensino público municipal, semelhantes às jovens desse segmento de outras cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre, capital do Estado, embora diferentes das que estão fora da escola ou que estudam na rede particular.

A média da idade foi de 12,8 anos, evidenciando que se encontram na adolescência, período de maior preocupação com a imagem, em função das intensas transformações corporais.13

Outros estudos têm demonstrado que a prevalência de insatisfação de meninas com a própria imagem é bastante elevada.23-25 Em Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, 61,4% das meninas estavam insatisfeitas23 e, em estudo sobre dois pequenos municípios gaúchos - Dois Irmãos e Morro Reuter -, encontrou-se um percentual de 63,9% de insatisfação entre escolares de oito a dez anos de idade.24 Para Porto Alegre, entre escolares de oito a 11 anos, a prevalência encontrada foi ainda mais alta: 82,0%.25 Diferentemente, em Florianópolis, capital de Santa Catarina, estudo com alunas do ensino fundamental e do ensino médio, de escolas públicas e privadas, utilizando o BSQ, constatou que apenas 18,8% estavam insatisfeitas com a imagem.26

Ricciardelli e McCabe,27 ao revisarem trabalhos produzidos na Austrália, Croácia, Inglaterra, México, Suíça e EUA, encontraram prevalências que, embora diferentes entre si, eram bastante altas e demonstravam a elevada preocupação com a imagem corporal também em adolescentes de outros países.

Em Gravataí, 40,0% das jovens encontravam-se insatisfeitas com seu corpo e apenas 4,6% estavam gravemente preocupadas com sua imagem. A baixa prevalência de preocupação com a imagem corporal, em comparação com os resultados dos estudos já citados, parece estar relacionada ao fato de se tratar de uma amostra bastante homogênea. A maioria das adolescentes era eutrófica, insuficientemente ativa e pertencente a classes sociais menos favorecidas, além de todas serem estudantes de escolas públicas. As jovens eram bastante semelhantes entre si e, possivelmente, não se sentiam cobradas quanto a sua imagem corporal. As pessoas aprendem a avaliar seus corpos a partir de sua interação com o ambiente,28 especialmente com seus pares, comparando-se com o padrão de beleza vigente.

Embora a mídia e o senso comum estimulem a preferência por determinada forma ou aparência física feminina - a que as jovens estão expostas, em diferentes níveis - é na cultura do meio em que as adolescentes vivem, reforçada pela família e amigos, que se encontra a maior influencia na definição da preferência por um modelo de corpo.23 Esse achado talvez explique os resultados aqui encontrados. É possível que haja uma cultura de encorajamento da satisfação corporal e valorização de aspectos da saúde, contribuindo para a maior aceitação do próprio corpo.

Outro aspecto que pode ter colaborado para os resultados do presente estudo é o fato de a proporção de meninas brancas e não brancas ser extremamente semelhante e as últimas apresentarem maior preocupação com sua imagem. Entre os estudos citados, é provável que a proporção de meninas brancas fosse maior do que em Gravataí-RS, contribuindo para mais altas prevalências de insatisfação.

A característica da amostra quanto à cor da pele diferencia-se da composição de raça/cor dos gaúchos - 82,6% de indivíduos brancos -,14 possivelmente em razão da amostra ter sido coletada na rede pública municipal, de grande capilaridade nas comunidades carentes, locais onde a proporção de não brancos é maior.

Foi interessante analisar a associação entre o desfecho e os fatores em estudo segundo cor de pele. Foram encontrados poucos artigos brasileiros tratando desse tema. Mulheres brancas e não brancas, sujeitas a diferentes condições de vida, sofrem distintos tipos de discriminação e preconceitos sociais e raciais.29 Acredita-se que a cor de pele faça com que as mulheres percebam seus corpos de forma diversa.

Segundo pesquisa com estudantes de Belo Horizonte-MG de ambos os sexos, entre seis e 18 anos de idade, houve diferenças significativas entre os grupos de cor de pele: 33,3% dos estudantes negros apresentaram insatisfação, comparados com 32,7% dos estudantes de cor parda; e com 23,6% dos estudantes brancos, os mais satisfeitos.23

Diferentemente desse resultado, pesquisa realizada com adolescentes escolares americanos comparou o peso referido entre diferentes etnias e identificou que meninas afro-americanas estavam menos preocupadas com seu peso do que as caucasianas.30 Na África do Sul, a prevalência de estudantes adolescentes brancas insatisfeitas com sua imagem é significativamente mais alta,.31 como em Gravataí, onde estes autores observaram serem as meninas brancas mais insatisfeitas com seu corpo do que as não brancas.

A distribuição das estudantes quanto à inserção econômica revelou que a maioria se encontrava na categoria C, classe intermediária. Quando avaliada sua associação com a percepção da imagem, não se encontrou significância estatística. Em Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso, verificou-se que a satisfação com a própria imagem era tão maior quanto mais alta a classe social.7 A falta de associação detectada no presente estudo pode ter sido determinada tanto pela homogeneidade da amostra como também é possível que a diferença de classe social não influencie na satisfação das jovens de Gravataí com o próprio corpo.

Apesar de a atividade física ser um importante determinante das características físicas dos adolescentes e a maioria das meninas se apresentarem insuficientemente ativas, não se evidenciou associação com o desfecho. A percepção da imagem corporal foi extremamente semelhante entre as duas categorias de atividade física. Não obstante, estudo realizado em Pelotas-RS mostrou um nível de sedentarismo de 39,0%, mais alto entre as meninas - 54,5% - do que nos meninos - 22,2%. Os que praticavam mais atividade física eram mais insatisfeitos com seu corpo, quando comparado aos que desenvolviam menos atividades.10

Em Gravataí, a maior parte das meninas encontrava-se na fase de aceleração da maturação sexual, caracterizada pelo estirão pubertário, com modificações da composição corporal em decorrência do aumento do tecido adiposo, magro e ósseo.32 Porém, as que apresentaram mais preocupação com a imagem foram as de maior maturidade sexual. Estudo realizado com meninas de dez a 14 anos, utilizando a idade cronologica para avaliar a maturidade, identificou o mesmo comportamento: as meninas pós-puberes se mostraram mais insatisfeitas do que as púberes.12

Acredita-se que a passagem do corpo infantil para o adulto aumenta a preocupação com a imagem corporal. As pré-púberes ainda apresentam um corpo com características infantis e, possivelmente, uma identidade também infantil. Talvez em função disso, encontrou-se mais satisfação com a imagem entre elas. Em contrapartida, as que se encontram em fase de desaceleração já apresentam características semelhantes aos adultos, podendo adotar, de forma mais estruturada, os ideais de beleza do mundo adulto. Possivelmente, o fato de as pós-púberes estarem em busca de uma nova identidade faz com que se encontrem mais preocupadas com a própria imagem.

Sobre o estado nutricional, diversos estudos32-34 alcançaram resultados semelhantes aos desta pesquisa: quanto maior o IMC, maior a preocupação com a imagem. Em São Paulo, pesquisa realizada com adolescentes de 14 a 19 anos de idade verificou que a insatisfação com a própria imagem foi mais prevalente entre os adolescentes com sobrepeso e obesidade, superior, inclusive, à das meninas.13 É mister, entretanto, observar que quase 40,0% das estudantes de Gravataí com sobrepeso/obesidade não referiram preocupação com seu corpo.

Pesquisa realizada em Ribeirão Preto-SP revela que obesas, ao apontar a forma de seu corpo em um teste de silhuetas, escolheram figuras inadequadas a sua imagem real.35 Talvez essa escolha correspondesse à expectativa de um corpo idealizado, o que justificaria a não preocupação com sobrepeso/obesidade de 40,0% das meninas do presente estudo. Também é digno de nota o percentual de meninas eutróficas que referiram algum nível de insatisfação, provavelmente em função do ideal de beleza - magro e esguio - reforçado pela mídia e pelo crescente espaço da profissão de modelo em todo o mundo.

Por fim, verificou-se a existência de uma menina abaixo do percentil 15 com importante distorção de sua imagem corporal. Essa situação é uma das causas de distúrbios alimentares do tipo de bulemia ou anorexia, cada vez mais prevalentes em nosso meio.26

Em Gravataí, a maioria das escolares mostrou-se satisfeita com sua imagem corporal. As meninas não brancas, particularmente, revelaram uma percepção mais positiva. A maior frequência de insatisfação com o corpo foi encontrada entre as adolescentes com sobrepeso/obesidade e na fase pós-puberal.

Frente aos achados deste estudo, os educadores e os profissionais de saúde devem estar atentos à existência de insatisfação com a imagem corporal entre estudantes do ensino fundamental e, portanto, ao desenvolvimento de ações visando à melhora da autoestima entre estes. É necessário questionar com as adolescentes os padrões de beleza socialmente aceitos, embora pouco saudáveis, e estimular escolhas que promovam sua saúde, como a atividade física e a alimentação saudável. Também é fundamental a realização de atividades que estimulem a autoestima, fortalecendo na adolescente a confiança em sua atratividade, bem como a aceitação social e o estabelecimento de vínculos amorosos.3

 

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Endereço para correspondência:
Av. Ganzo, 238, Menino Deus,
Porto Alegre-RS, Brasil.
CEP:90150.070
E-mail:daerts@via-rs.net

Recebido em 27/09/2010
Aprovado em 23/03/2011

 

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